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segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Exu no Museu Afro Brasil

O Museu Afro Brasil  foi fundado em 2004 por seu diretor e curador, o artista Emanoel Araújo. 
Localizado no pavilhão Padre Manoel da Nóbrega, no Parque Ibirapuera, em São Paulo, a instituição possui mais de 6 mil obras, entre pinturas, esculturas, gravuras, fotografias, documentos e peças etnológicas, de autores brasileiros e estrangeiros, produzidos entre o século XVIII e os dias de hoje. O acervo abarca diversos aspectos dos universos culturais africanos e afro-brasileiros, abordando temas como a religião, o trabalho, a arte, a escravidão, entre outros temas ao registrar a trajetória histórica e as influências africanas na construção da sociedade brasileira.
(Texto adaptado da apresentação disponível no site da instituição). 

Exu, orixá mensageiro entre os homens e os deuses, é uma das figuras mais polêmicas do candomblé. Desde sua origem na África, está associado ao poder de fertilização e à força transformadora das coisas. Nada se faz, portanto, sem sua permissão. Entre os objetos que o representam está o ogó, instrumento de madeira esculpido em forma de pênis e adornado com cabaças e búzios, que representam os testículos e o sêmen.
Espírito justo, porém vingativo, Exu nada executa sem obter algo em troca e não esquece de cobrar as promessas feitas a ele. Um mito iorubano conta que dois amigos esqueceram de fazer as oferendas devidas a Exu. este colocou então na cabeça um chapéu pintado de um lado vermelho e de outro branco. Ao passar entre os dois amigos, cumprimentou-os e prosseguiu. Os amigos intrigados se questionaram: " Quem seria o andarilho com aquele chapéu vermelho?". O outro retrucou: "Não, o chapéu era branco". Discutindo a respeito da cor do chapéu, os amigos começara a brigar até se matarem... 
O dia de Exu é a segunda-feira, dia das almas no calendário católico, e sua comida preferida é o galo, farofa de dendê, pimenta e cachaça. Com essas atribuições é fácil de imaginar porque o culto a Exu era visto como demoníaco pela Igreja já na África e no Brasil colonial. A associação com esta divindade com o demônio, que era invocado nas orgias sexuais das bruxas da Idade Média, deu-lhe feições de diabo com chifres, rabo e patas de bode no lugar das mãos. No rito jeje, o deus mensageiro é Elebará e no rito angola é Aluviá (masculino) e Pombagira (feminino).
(Texto disponível na exposição permanente do Museu Afro Brasil)

O ensaio abaixo apresenta algumas das peças do acervo permanente em exibição. Clique sobre as imagens para vê-las em tamanho ampliado. O blog Reconstruindo Exu recomenda enfaticamente aos seus leitores que visitem o Museu Afro Brasil. O museu está aberto de terça-feira a domingo, das 10 às 17h. O ingresso custa R$ 6,00 e aos sábados a entrada é gratuita. Para mais informações acesse o site da instituição: http://www.museuafrobrasil.org.br

Exu
Metal

Exu
Goiás
Madeira e fibra vegetal

Hugo Negrini
Exu
Resina de poliéster e tinta automotiva

José Alves
Barca dos Exus
Madeira pintada, fibra vegetal e metal

Nelson Leirner
O cortejo
2009
Instalação

Tamba
Viagem dos exus e Exus
Cachoeira, Bahia

Aldemir Martins
Exu
1966
Aquarela e nanquim sobre papel

Carybé
Exu
Tecido, metal, madeira, conchas

Chico Tabibuia
Exus
Madeira

Exu
Nigéria
Madeira

Exu
Nigéria
Madeira

Pierre Verger
Exu
Fotografia

Chico Tabibuia
Exu
Madeira policromada

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Pombagira na Casa de Velas Santa Rita

Imagem de Pombagira Maria Quitéria da Calunga.

As pombagiras geralmente incorporam em mulheres e dizem vir ao mundo para ajudá-las, apresentando-se às suas médiuns como singulares imagens de femininos que atribuem sentidos às suas vivências pessoais. Essa entidade carrega consigo marcas de sensualidade, erotização e luxúria, sendo comumente compreendida como uma "prostituta sagrada". No entanto, diferente do que a "moral" mais tradicional poderia pressupor, a pombagira é reverenciada e cultuada com destaque por seus fiéis que, em geral, as consideram como uma "confidente" ou, como preferem alguns, uma "psicóloga".

Além de serem uma possibilidade de elaboração de "tipos sociais" femininos marginalizados, as pombagiras possibilitam ainda que o que não era dito seja vivido. Evocam-se o nomadismo e o desapego dos ciganos, a morte e a doença, a sexualidade e o erotismo, a luxúria e a vaidade, de maneira que o que se tenta(va), expurgar a umbanda, inclui em sua sacralidade e entrega a cada emoção o seu lugar.

Muitos são os elementos que nos indicam que a "Pomba" gira em várias direções e parece exalar as mais diversas ascendências. Elabora-se o marginal e discriminado ao fornecer continente a um olhar de si e do "ser mulher" mais dignificante, reiterando sentidos presentemente arcaicos, mas respondendo às urgências de femininos eminentemente contemporâneos.

Trechos do artigo "Os deuses não ficarão escandalizados": ascendências e reminiscências de femininos subversivos no sagrado, de Mariana Leal de Barros. Revista Estudos Feministas vol.21 no.2. Florianópolis: Maio/Agosto, 2013. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-026X2013000200005&script=sci_arttext>.

O ensaio abaixo foi produzido em agosto de 2014 na Casa de Velas Santa Rita, em São Paulo. Clique sobre as imagens para vê-las em tamanho ampliado.

Imagem de Pombagira Rainha das Rainhas.

Imagem de Pombagira Rainha das 7 Encruzilhadas.

Imagem de Pombagira Cartomante.

Imagem de Pombagira Gargalhada.

Imagem de Pombagira 7 Chaves e Pombagira Mocinha.

Imagem de Pombagira Maria Quitéria da Campanha.

Imagem de Pombagira Rainha das Rainhas.

Imagem de Pombagira Mirongueira.

Imagem de Pombagira Padilha Rainha.




quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Origens de Exu - parte 6: Exu no Novo Mundo

Série de postagens a respeito das origens de Exu com base na investigação de Pierre Verger, apresentada no livro Orixás - Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo.

Ogó de Exu. Nigéria, século XIX.
Acervo do Art Institute of Chicago.

Oriundos de diversas partes do continente, os africanos que aportaram nas Américas não possuíam, portanto, uma religião unificada, ainda que muitos deuses (orixás) fossem os mesmos. Por outro lado, os próprios orixás possuem múltiplos aspectos ou facetas, como cita Pierre Verger no livro Orixás - Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo, ao falar de Exu:

"Diz-se na Bahia que existem vinte e um Exus, segundo uns, e apenas sete, segundo outros. Alguns dos seus nomes podem passar por apelidos, outros parecem ser letras dos cânticos ou fórmulas de louvores. Eis alguns: Exu-Elegbá ou Exu-Elegbará e seus possíveis derivados: Exu-Bará ou Exu-Ibará, Exu-Alaketo, Exu-Laalu, Exu-Jeto, Exu-Akessan, Exu-Loná, Exu-Agbô, Exu-Larôye, Exu-Inan, Exu-Odora, Exu-Tiriri."

Assim, conforme os africanos vão se agrupando pelo continente, vão estruturando os cultos aos orixás de acordo com as condições que lhes são impostas. Não sendo estas condições idênticas em cada local, os cultos se apresentam sob diferentes nomes e estruturas rituais. Deste modo, não é de se estranhar que Exu igualmente se materialize sob diferentes características e nomes.
No Brasil, Exu permanece como orixá no Candomblé, mas se apresenta como um espírito na Umbanda e na Quimbanda. Neste caso, é chamado exu quando masculino e pombagira quando feminino.
Em Cuba o culto aos orixás é chamado Santería, e o equivalente a Exu é chamado Eleguá e cultuado sob a forma de orixá. A Santería também aportou em outros países da América Latina, como Venezuela e Peru. Também em Cuba desenvolve-se o Palo Mayombe, ou Palo Monte, ou simplesmente Palo e o culto a Lucero. O Palo Mayombe também chega a diversos paises da América do Sul e América Central, incluindo o México.
No Haiti desenvolve-se o Vodu e o culto a Papa Legba.
Por fim, no Suriname, Exu assume o nome Leba no culto conhecido como Winti.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Origens de Exu - parte 4: Orixás e sincretismo na América

Série de postagens a respeito das origens de Exu com base na investigação de Pierre Verger, apresentada no livro Orixás - Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo.

Ogó de Exu. Nigéria, século XX.
Acervo do Metropolitan Museum of Art.

A presença dessas religiões africanas no novo mundo é uma conseqüência imprevista do tráfico de escravos. Escravos estes que foram trazidos para os diferentes países das Américas e das Antilhas, provenientes de regiões da África escalonadas de maneira descontínua, ao longo da costa ocidental, entre Senegâmbia e Angola. Provenientes, também, da costa oriental de Moçambique e da ilha de São Lourenço, nome dado época a Madagascar. 
Disso resultou, no Novo Mundo, Uma multidão de cativos que não falava a mesma língua, possuindo hábitos de vida diferentes e religiões distintas. Em comum, não tinham senão a infelicidade de estar, todos eles, reduzidos à escravidão, longe das suas terras de origem.
[...]
As convicções religiosas dos escravos eram, entretanto, colocadas a duras provas quando de sua chegada ao Novo Mundo, onde eram batizados obrigatoriamente "para a salvação de sua alma" e devia curvar-se às doutrinas religiosas de seus mestres.

Sincretismo

É difícil precisar o momento exato em que esse sincretismo se estabeleceu. Parece ter-se baseado, de maneira geral, sobre detalhes das estampas religiosas que poderiam lembrar certas características dos deuses africanos.
[...]
Os santos católicos, ao se aproximarem dos deuses africanos, tornavam-se mais compreensíveis e familiares aos recém-convertidos. É difícil saber se essa tentativa contribuiu efetivamente para converter os africanos, ou se ela os encorajou na utilização dos santos para dissimular as sua verdadeiras crenças.
[...]
Nos candomblés, as duas religiões permanecem separadas, e Nina Rodrigues constatava que, em fins do último século, a conversão religiosa não fez mais que justapor as exterioridades muito mal compreendidas do culto católico às suas crenças e práticas fetichistas que em nada se modificaram. Concebem os seus santos ou orixás e os santos católicos como de categoria igual, embora perfeitamente distintos.
Os africanos escravizados se declaravam e aparentavam convertidos ao catolicismo; as práticas fetichistas puderam manter-se entre eles até hoje quase tão extremes de mescla como na África. Depois, as viagens constantes para a África com navegação e relações comerciais diretas facilitaram a reimportação de crenças e práticas, porventura um momento esquecido ou adulterado. Com o passar do tempo, com a participação de descendentes de africanos e de mulatos cada vez mais numerosa, educada num igual respeito pelas duas religiões, tornaram-se eles tão sinceramente católicos quando vão à igreja, como ligados às tradições africanas, quando participam, zelosamente, das cerimônias de candomblé.

Trechos retirados do livro Orixás - Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo, de Pierre Fatumbi Verger. Salvador: Corrupio, 1981.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Origens de Exu - parte 3: Légba

Série de postagens a respeito das origens de Exu com base na investigação de Pierre Verger, apresentada no livro Orixás - Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo.

Estátua de Legba em Ouidah, Benin.
<http://www.flickr.com/photos/moi_of_ra/386900492/>

Entre os fon do ex-Daomé, Èsù-Elégbára tem o nome de Légba. Ele é representado por um montículo de terra em forma de homem acocorado, ornado com um falo de tamanho respeitável. Esse detalhe deu motivo a observações escandalizadas, ou divertidas, de numerosos viajantes antigos e fizeram-no passar, erradamente, pelo deus da fornicação. Esse falo ereto nada mais é do que a afirmação de seu caráter truculento, atrevido e sem-vergonha e de seu desejo de chocar o decoro.

Trecho retirado do livro Orixás - Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo, de Pierre Fatumbi Verger. Salvador: Corrupio, 1981.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Origens de Exu - parte 2: Exu na África

Série de postagens a respeito das origens de Exu com base na investigação de Pierre Verger, apresentada no livro Orixás - Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo.


Escultura de Exu. Nigéria, século XIX.
Acervo do Staatliches Museum für Völkerkunde.

Exu é um orixá ou um ebo ra de múltiplos e contraditórios aspectos, o que torna difícil defini-lo de maneira coerente. De caráter irascível, ele gosta de suscitar dissensões e disputas, de provocar acidentes e calamidades públicas e privadas. É astucioso, grosseiro, vaidoso, indecente, a tal ponto que os primeiros missionários, assustados com essas características, compram-no ao diabo, dele fazendo o símbolo de tudo o que é maldade, perversidade, abjeção, ódio, em oposição à bondade, à pureza, à elevação e ao amor de Deus.
Entretanto, exu possui o seu lado bom e, se ele é tratado com consideração, reage favoravelmente, mostrando-se serviçal e prestativo. Se, pelo contrário, as pessoas se esquecerem de lhe oferecerem sacrifícios e oferendas, podem esperar todas as catástrofes Exu revela-se, talvez, dessa maneira o mais humano dos orixás, nem completamente mau, nem completamente bom.
[...]
Exu é o guardião dos templos, das casas, das cidades e das pessoas. É também ele que serve de intermediário entre os homens e os deuses. Por essa razão é que nada se faz sem ele e sem que oferendas lhe sejam feitas, antes e qualquer outro orixá, para neutralizar suas tendências a provocar mal-entendidos entre os seres humanos e em suas relações com os deuses e, até mesmo, dos deuses entre si.
[...]
O lugar consagrado a Exu entre os iorubás é constituído de um pedaço de pedra porosa, chamada Yangi, ou por um montículo de terra grosseiramente modelado na forma humana, com olhos, nariz e boca assinalados com búzios, ou então ele é representado por uma estátua, enfeitada com fieiras de búzios, tendo em suas mãos pequenas cabaças (àdó), contendo os pós por ele utilizados em seus trabalhos. Seus cabelos são presos numa longa trança, que cai para trás e forma, em cima, uma crista para esconder a lâmina de faca que lê tem no alto do crânio.

Trechos retirados do livro Orixás - Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo, de Pierre Fatumbi Verger. Salvador: Corrupio, 1981.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Origens de Exu - parte 1: a definição de orixá

A partir de hoje damos início a uma série de postagens a respeito das origens de Exu com base na investigação de Pierre Verger, apresentada no livro Orixás - Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo.

Bastão de madeira para ritual de Exu. Nigéria, século XIX.
Acervo do Brooklyn Museum.

Léo Frabenius é o primeiro a declarar, em 1910, que a religião dos iorubás tal como se apresenta atualmente só gradativamente tornou-se homogênea. Sua uniformidade é o resultado de adaptações e  amálgamas progressivos de crenças vindas de várias direções. Atualmente, setenta anos depois, ainda não há, em todos os pontos do território chamado Iorubá, um panteão dos orixás bem hierarquizado, único e idêntico.
[...]
O orixá é uma força pura, àe imaterial que só se torna perceptível aos seres humanos incorporando-se em um deles.
[...]
Voltando assim, momentaneamente, a terra, entre seus descentes, durante as cerimônias de evocação, os orixás dançam diante deles e com eles, recebem seus cumprimentos, “ouvem as suas queixas, aconselham, concedem graças, resolvem as suas desavenças e dão remédios para as suas dores e consolo para os seus infortúnios. O mundo celeste não está distante, nem superior, e o crente podem conversar diretamente com os deuses e aproveitar da sua benevolência”.
[...]
Na África, cada orixá estava ligado originalmente a uma cidade ou a um país inteiro. Tratava-se de uma série de cultos regionais ou nacionais, Sàngó em Oyó, Yemoja na região de Egbá, Iyewa em Egbado, Ògùn em Ekiti e Ondô, Òun em Ijexá e Ijebu, Erinlé em Ilobu, Lógunède em Ilexá, Otin em Inixá, Òàálà-Obàtálá em Ifé, subdivididos em Òàlúfon em Ifan e Òàgiyan em Ejigbô...

Trechos retirados do livro Orixás - Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo, de Pierre Fatumbi Verger. Salvador: Corrupio, 1981.


sábado, 7 de setembro de 2013

Contra Exu

"Exu" - escultura de Tamba. Sem data.

Na Universal, vale quase tudo para "despertar a fé das pessoas", ou para convencê-las de que a igreja prega um Evangelho de poder, que, além de verdadeiro, "funciona" na prática. As "sessões espirituais de descarrego", criadas no limiar do novo milênio, constituem um de seus mais recentes e populares experimentos sincréticos. Como se pode perceber, não se trata propriamente de culto a Deus, mas de "sessão" dedicada à imprecação de encostos ou demônios que insistem em "encostar-se" nos adeptos e na clientela da Universal. [...]
Apesar de a imagem genérica em torno do sincretismo remeter-se comumente a uma suposta e tradicional tolerância religiosa dos brasileiros, a opção sincrética da Universal, cumpre frisar, não a levou a suprimir seus rompantes de intolerância nem sua notória hostilidade aos cultos afro-brasileiros. Daí uma das principais razões de seu envolvimento em diversos incidentes e conflitos religiosos ao longo dos anos.

Trecho do artigo Expansão pentecostal no Brasil: o caso da Igreja Universal, de Ricardo Mariano.  Estudos Avançados.  São Paulo,  v. 18, n. 52, 2004.


Os exus [...] são espíritos malignos sem corpo, ansiando por achar um meio para se expressarem neste mundo, não podendo fazê-lo antes de possuírem um corpo. Por isso, procuram o corpo humano, dada a perfeição de funcionamento dos seus sentidos. Existem casos em que por força das circunstâncias eles chegam a possuir animais para cumprir seus intentos perversos.

Trecho do livro Orixás, caboclos e guias: deuses ou demonios?, de Edir Macedo. Rio de Janeiro: Unipro, 2012.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Exu por Chico Tabibuia


O artista Chico Tabibuia ao lado de sua escultura "Exu".
<http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa21764/chico-tabibuia>


 Ora, ao retratar o sobrenatural Exu, sob as suas mais diversas formas, inclusive sob a dualidade masculino/feminino, Tabibuia estaria assumindo um papel de pessoa já externa à religião da umbanda. Com a possível contradição - tão comum na arte e na vida - de não ter abandonado em profundidade as crenças relativas a ela, já que atribui às esculturas um papel quase votivo e sem dúvida exorcizador dos dissabores causados por Exu, que ele agora identifica Lúcifer. Legitimado pela religião evangélica para a retratação do orixá, não mais transgressor porque livre da interdição do mistério, por outro lado Tabibuia declara que, ao representar os exus, faz com que fiquem aprisionados na escultura, "para não fazerem mais mal ao povo", ficando cada vez mais "fugidos das matas", onde poderiam atuar em liberdade.
Ficam patentes nessas suas palavras, e na sua obra realizada, as grandes energias que envolvem a um tempo concentração, prazer e sofrimento, mobilizadas pelo escultor em seu trabalho, ao transformar uma força natural em forma viva, porque criativa.



Trecho do prefácio de Lélia Coelho Frota para o livro A escultura mágico-erótica de Chico Tabibuia, de Paulo Pardal. 

"Exu" - 1980

"Exu hermafrodita" - 1996

"Família de Exus" - 1996
  
"Exu bissexual" - 2004
"Exu" - 2004

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Exu e o sexo


"Exu Oba Wura". Escultura do artista Master Saint.
<http://mastersaint.com>
Exu por ser resultado da interação de um par, é o portador mítico do sêmen e do útero ancestral e como princípio de vida individualizada ele sintetiza os dois, É por isso que frequentemente, e, é representado pela forma de um par, uma figura masculina e uma feminina, unidos por fileiras de búzios. Exu está profundamente ligado à atividade sexual. Representados por um falo (pênis), ou suas representações simbólicas como: os penteados de forma fálica, sua arma, o ogó - bastão em forma de pênis -, sua lança; já as cabacinhas representam seus testículos.
Exu também está representado com objetos à sua boca; dedo, cachimbo e principalmente flauta, que vem representar a atividade sexual, como absorção e expulsão, ingestão e restituição, com a flauta Exú chama seus descendentes. Portanto símbolo por excelência da fecundidade. Exú jamais toma a forma de procriador. Exu é cultuado tanto como lésè-égún, como lésè-orixá, e apenas por seu intermédio é possível cultuar os orixás e as Iyá-mi (mãe ancestral). Não é apenas Òjisé-ebo, mas principalmente Òjisé, o mensageiro, fazendo a comunicação entre tudo que é oposto.

Trecho de texto retirado do blog Tanos. Disponível em: <http://tanos.blogspot.com.br/2004/07/orixas-histrias-e-dados.html>.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Exu na Casa de Velas Santa Rita - parte 2

A iconografia brasileira dos exus não deixa dúvida sobre o que se pensa deles nas casas em que se observa o culto de quimbanda. Na verdade, não é preciso ir a um templo em que se realiza culto a essas entidades para ver as estátuas de gesso dos exus e pombagiras de quimbanda em tamanho natural, monumentos figurativos de gosto duvidoso, figuras masculina e feminina concebidas com as roupas, adereços e posturas que se imaginam próprias dos soberanos do inferno e dos humanos decaídos. Para apreciar a iconografia dos exus, basta andar pela rua e passar em frente a uma loja de artigos religiosos de umbanda e candomblé, que têm certa predileção de exibir essas estátuas à venda na entrada dos estabelecimentos, bem à vista. Há uma grande variedade dessas imagens, umas grandes, outras de tamanhos menores, um modelo para cada exu, um para cada pombagira, estas com freqüência idealizadas com roupas sumárias, se não escandalosas, lembrando mulheres de vida fácil no imaginário popular. Nos terreiros, elas se encontram no barracão ou mais preferencialmente nos quartos do culto reservado aos iniciados, os quartos-de-santo, ou, conforme a designação umbandista, na tronqueira, o quarto dos exus.

Trecho do artigo Exu, de mensageiro a diabo. Sincretismo católico e demonização do orixá Exu, de Reginaldo Prandi. Revista USP nº50. São Paulo: USP, 2001. Disponível em <http://www.revistas.usp.br/revusp/article/view/35275/37995>.

Imagem de Exu Zé Pelintra.
Imagem de Exu Rei.
Imagens de ferro de exus e pombagiras.
Detalhe de imagem de ferro de exu.
Cartolas de exus.
Imagem de Exu Cobra.
Ferramentas de ferro para o trabalho com exus e pombagiras.
Imagem de Exu Asa Negra.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Exu e Jorge Amado

"Exu" - foto de Edmilson Silva da escultura de Mario Cravo
na Fundação Casa de Jorge Amado.
<http://www.flickr.com/photos/edmilsonsilva/94019382/>

Exu come tudo que a boca come, bebe cachaça, é um cavalheiro andante e um menino reinador. Gosta de balbúrdia, senhor dos caminhos, mensageiro dos deuses, correio dos orixás, um capeta. Por tudo isso sincretizaram-no com o diabo; em verdade ele é apenas o orixá em movimento, amigo de um bafafá, de uma confusão mas, no fundo, excelente pessoa. De certa maneira é o Não onde só existe o Sim; o Contra em meio do a Favor; o intrépido e o invencível. Toda festa de terreiro começa com o padê de Exu, para que ele não venha causar perturbação. Sua roupa é bela: azul, vermelha e branca e todas as segundas-feiras lhe pertencem. Há várias qualidades de Exu: Exu Tiriri, Exu Akessan, Exu Yangui, muitos outros. Exu leva o ogó, sua insígnia, e gosta de sentir o sangue dos bodes e dos galos correndo em seu peji, em sacrifício.

Texto de Jorge Amado, disponível no site da Fundação Casa de Jorge Amado.
<http://www.jorgeamado.org.br/?page_id=53>

Foi feito despacho de Exu, para que ele não viesse perturbar a boa marcha da festa. E Exu foi para muito longe, para Pernambuco ou para a África.
E Exu, como tinham feito o seu despacho, foi perturbar outras festas mais longe, nos algodoais da Virgínia ou nos candomblés do Morro da Favela.
Uma vez tinham metido Jubiabá na chave, o pai-de-santo passara a noite lá e tinham levado Exu. Foi preciso que Zé Camarão, que era finório como ele só, fosse buscar o Orixá - lá na própria sala do delegado, nas barbas do soldado. Quando o malandro chegara com Exu debaixo do casaco foi uma festa. E houve uma macumba que durou a noite toda para desagravar Exu que estava furioso e poderia perturbar as outras festas depois.

Trechos retirados do livro Jubiabá, de Jorge Amado (Companhia das Letras, 2008).

terça-feira, 11 de junho de 2013

Perfil de Exu


Imagem de Exu ajoelhado. África, século XIX. Acervo do Brooklyn Museum.
<http://www.brooklynmuseum.org/opencollection/objects/108321/Kneeling_Figure_Eshu-Elegba/image/120717/image#>

Exu é o orixá mensageiro; nada se faz sem ele e ele nada faz sem cobrar a sua parte. É também o guardião da porta da rua e o dono das encruzilhadas. É desprovido de qualquer senso de moralidade no sentido ocidental. É sincretizado com o diabo, as almas e São Gabriel, mas em Cuba é o Menino Jesus. Seus filhos usam contas de louça azul-escuro e, quando em transe, Exu é vestido nas cores azul-escuro e vermelho, trazendo na mão um ogó, bastão fálico. Todas as cerimônias começam com uma louvação prévia a Exu. A ele são sacrificados bode e galo preto. Também “come” farofa, pipoca, feijão, inhame, e “bebe” mel, dendê, aguardente e gim. Suas principais qualidades (invocações, avatares) no queto são: Iangui (o da porta), Ijelu, Agbbô, Inã (do fogo), Odara (do feitiço), Elebó, Enuquebarijó (o multiplicador), Eleru, Onã ou Lonã, Aqueçã, Barabô (primeira qualidade a ser louvada em qualquer terreiro do Brasil e em Cuba); no angola é chamado Bombogira (de onde vem Pomba Gira, Exu feminino), Tiriri, Lembá, Nilê, Cariapemba; no jeje: Elegu , Bara, Lalu. Seu dia é segunda-feira e sua saudação Laroiê!

Trecho retirado do livro Os candomblés de São Paulo, de Reginaldo Prandi. Disponível em: <http://www.fflch.usp.br/sociologia/prandi/csp-down.htm>.


Exu recebe diversos nomes, de acordo com a função que exerce ou com suas qualidades: Elegbá ou Elegbará, Bará ou Ibará, Alaketu, Agbô, Odara, Akessan, Lalu, Ijelu (aquele que rege o nascimento e o crescimento de tudo o que existe), Ibarabo, Yangi, Baraketu (guardião das porteiras), Lonan (guardião dos caminhos), Iná (reverenciado na cerimônia do padê).
A segunda-feira é o dia da semana consagrado a Exu. Suas cores são o vermelho e o preto; seu símbolo é o ogó (bastão com cabaças que representa o falo); suas contas e cores são o preto e o vermelho; as oferendas são bodes e galos, pretos de preferência, e aguardente, acompanhado de comidas feitas no azeite de dendê. Aconselha-se nunca lhe oferecer certo tipo de azeite, o Adí, por ser extraído do caroço e não da polpa do dendê e portar a violência e a cólera. Sua saudação é "Larôye!" que significa o bem falante e comunicador.
Consiste o padê em um prato de farofa amarela, acaçá, azeite-de-dendê e uma quartinha de água ou cachaça, que são “arriados” para Exu.
Na nação de angola ou candomblé de Angola Exu recebe o nome de Aluvaiá, Pambu Njila, e Legbá, no Candomblé Jeje.
Não deve ser confundido com a entidade Exu de Umbanda. Os exus de umbanda sao entidades de pessoas desencarnadas que, por motivos de evoluçao espiritual, retornaram à terra para cumprir essa missão junto ao seus seguidores. Essas entidades são confundidas com esu ou exu do Candomblé devido à proximidade que Exu tem com os homens. Entretanto, não são considerados orixás como o Exu, e sim quiumbas - conhecedores das vontades de homens e mulheres no plano terrestre, tendo vivido em épocas diferentes, porém com os mesmos problemas, desejos e sonhos.

Trecho retirado da página Exu (orixá), da Wikipedia. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Exu_%28orix%C3%A1%29>.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Exu Zé do Caixão - parte 2

À direita: imagem do Exu Capa Preta da Encruzilhada.
À direita: boneco do personagem Zé do Caixão, criado pelo artista Matthew Jaycox.

Zé do Caixão é seu personagem mais famoso, nascido de um sonho em que um exu aparece em seu quarto e lhe puxa, pelo pé, para o inferno. A semelhança do personagem com a entidade da umbanda/candomblé é evidente: a capa preta e a cartola caracterizam a figura popular nos terreiros. No entanto, Zé do Caixão não acredita na umbanda, no cristianismo, na reencarnação ou no que quer que seja, proferindo discursos niilistas capazes de abalar a fé dos mais fervorosos.

Trecho do texto de J. W. Kielwagen. Disponível em <http://bulhorgia.com.br/colunas_mojica.htm>.

Capa do disco "A Peleja do Diabo com o Dono do Céu", de Zé Ramalho.
Fotografado pelo cineasta Ivan Cardoso, o cantor aparece cercado
pelo personagem Zé do Caixão e por uma Pombagira interpretada por Xuxa Lopes.

mas José Mojica Marins
é um grande ser artista
que fez de um personagem
seu forte ponto de vista
um homem que encara a morte
com uma visão realista

pro povo mais populista
que queiram analisar
o diabo é algo assim
crendice bem popular
exu de barba e capote
e unhas para agarrar

e se o diabo vem cantar
contra um dono do céu
que é o nome de um tal disco
envolto em paz e véu
os dois bons personagens
irão sentar-se no réu

Trecho do poema de cordel A Peleja de Zé do Caixão com o cantor Zé Ramalho, de Zé Ramalho. Disponível em <http://www.zeramalho.com.br/sec_news.php?page=1&id_type=2&id=28>.

Rótulo de marafo com imagem de Zé do Caixão. Autoria e data desconhecidas.

domingo, 2 de junho de 2013

Exu na Casa de Velas Santa Rita

Na região central da cidade de São Paulo existe uma loja que é um ponto de referência para religiosos: a Casa de Velas Santa Rita, também conhecida como Casa das Velas. Diferente das lojas comuns de artigos religiosos, que geralmente são direcionadas a atender uma ou outra religião, a Casa de Velas Santa Rita apresenta um vasto estoque de artigos católicos e afro-brasileiros em um mesmo local.

Sua localização é emblemática. Situa-se na Praça da Liberdade, ponto central do bairro que abriga a maior colônia japonesa do mundo. Até o final do século XIX a praça era conhecida como Largo da Forca, por abrigar uma forca para punir criminosos e negros. Ao lado da Casa de Velas Santa Rita está a Igreja Santa Cruz das Almas dos Enforcados, onde se criou o hábito de acender velas em homenagem às almas enforcadas naquele local. Com a abolição dos escravos e da pena de morte no Brasil, o largo teve seu nome alterado para Praça da Liberdade.

A Casa de Velas Santa Rita foi inaugurada em 1935 como uma leiteria e casa de velas. Naquela época as velas eram feitas de sebo animal, e aproveitava-se a matéria-prima vinda dos bovinos para atender às necessidades dos devotos da igreja. Muitos desses devotos eram negros, descendentes de escravos, e iniciados na Umbanda, ainda perseguida e que se manifestava às escondidas. Aproveitando essa lacuna, pouco a pouco a Casa passou a comercializar artigos religiosos. Artigos para os católicos que frequentavam as igrejas próximas e os iniciados nos cultos afro-brasileiros que também frequentavam as igrejas, mas precisavam de material para seus terreiros.

Dentro da Casa Santa Rita há uma sessão dedicada aos exus e pombagiras. Abaixo segue um pequeno ensaio fotográfico dos artigos de esquerda da Casa. Clique nas imagens para visualizá-las em tamanho maior.

Área da loja onde se encontram imagens de exus e pombagiras.

Estante com imagens de exus e pombagiras à venda.

Estante com imagens de exus e pombagiras à venda.

Imagem de Exu Destranca Rua ao lado de Exu Morte.

Imagem de Exu Marabô, com imagens de Exu Lorde da Morte ao fundo.

Imagem de Exu Pimenta.

Detalhe da imagem de Exu João Caveira.

Imagem de Exu Mau Olhado.

Marafo (bebida para oferenda a exus) vendido na loja.


A Casa de Velas Santa Rita fica na Praça da Liberdade, 248. São Paulo - SP. Telefone: (11) 3208-7022.
Endereço eletrônico: http://www.srita.com.br/