segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Iconologia do ebó - parte 5

Série de postagens explorando a iconografia dos ebós apresentados na instalação "Reconstruindo Exu".

Foto de Danilo Menezes.

1- Caminhos
Exu é uma entidade associada à ideia de caminhos e passagens. Como responsável pela comunicação, faz sentido que cuide para que a informação chegue sempre ao seu destino.  Na umbanda muitos dos nomes dos exus confirmam o caráter do encontro, passagem, transposição e percurso: Exu 7 Encruzilhadas, Exu Tranca Rua, Exu Porteira, Exu 7 Estradas, Exu Destranca Rua etc. As correntes, chaves e cadeados são signos que carregam a tanto a ideia de impedimento e proibição em um percurso como a autorização e a exclusividade, o privilégio da passagem. Para a composição deste ebó foi pedido que as pessoas ofertassem chaves, correntes e cadeados, em uma ação simbólica para se desfazerem de quaisquer impedimentos no trajeto em direção aos seus objetivos.

Foto de Danilo Menezes.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Iconologia do ebó - parte 4

Série de postagens explorando a iconografia dos ebós apresentados na instalação "Reconstruindo Exu".


Foto de Danilo Menezes.

1- Sexualidade e fertilidade
O instrumento mágico de Exu é o ogó, um bastão em formato fálico que representa a sexualidade e a o poder da fertilidade. A fertilidade e o prazer não estão associados somente ao ato sexual, mas a qualquer ato criador, incluindo as manifestações artísticas. Neste ebó evidencia-se esse aspecto apresentando um falo de borracha como um ogó contemporâneo e em um arranjo de pimentas, ingrediente fundamental em oferendas a Exu, que no senso comum está associado ao prazer do ato sexual.

Foto de Danilo Menezes.

domingo, 15 de setembro de 2013

Iconologia do ebó - parte 3

Série de postagens explorando a iconografia dos ebós apresentados na instalação "Reconstruindo Exu".

Foto de Danilo Menezes.

1- Comunicação
Exu é o orixá da comunicação. Intermediário entre os homens e os outros orixás, é dele a responsabilidade de transmitir as mensagens aos destinatários e fazer com que sejam bem compreendidas. A hiper-conectividade como característica da sociedade contemporânea nos apresenta uma série de dispositivos que ampliam a capacidade de comunicação entre os indivíduos. Ao mesmo tempo que não encontramos barreiras que impeçam a comunicação, tornamo-nos muitas vezes redundantes e superficiais. O aparelho de celular é apresentado como ícone deste modelo comunicacional contemporâneo, o modelo da comunicação imediata, mediada pelo dispositivo eletrônico, mas que pode ser esvaziado no conteúdo.

Foto de Danilo Menezes.

2- Farofa
Uma das comidas de Exu é a farofa, em geral preparada com aguardente e dendê. Mas a palavra "farofa" pode ser sinônimo de algo interferente. Segundo Leo Marcos José da Silva, no artigo A gíria como participante do falar brasileiro, o termo pode ser usado para designar uma pessoa que acompanha uma moça e atrapalha ou impede o galanteio, ou ainda como sinônimo de confusão, falatório ou muvuca. A farofa guarda vários aparelhos celulares, atentando para os aspectos da comunicação em tempos de hiper-conectividade.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Iconologia do ebó - parte 2

Série de postagens explorando a iconografia dos ebós apresentados na instalação "Reconstruindo Exu".

Foto de Danilo Menezes.

1- Garfo de ferro
O garfo de ferro é uma ferramenta usada nos trabalhos dedicados ao assentamento de Exu. O assentamento trata de criar um ponto físico, permanente ou não, que delimita o espaço de manifestação daquela entidade. É a criação de um espaço sagrado em meio ao espaço profano.

Foto de Danilo Menezes.

2- Guias
Guias são colares usados pelos adeptos dos cultos de matriz africana. Amuletos poderosos, capazes de canalizar energias sobrenaturais, protegendo os médiuns. As diferentes cores e tamanhos referem não só a um orixá ou entidade, mas também a relação mantida pelo adepto. De certa forma, a guia é como uma aliança, não rígida e estrita, exigente de fidelidade, mas íntima e fluida, símbolo de uma conexão espiritual. As guias podem mudar de forma e tamanho segundo a intuição do iniciado.
Tanto a guia como o garfo de ferro são símbolos de ligação entre o homem e o mundo físico com o sobrenatural.

Iconologia do ebó - parte 1

Série de postagens explorando a iconografia dos ebós apresentados na instalação "Reconstruindo Exu".

Foto de Danilo Menezes.

1 - Velas e fogo
Na tradição do candomblé cada orixá está intimamente conectado a elementos da natureza. Um dos elementos associados a Exu é o fogo. No sincretismo da umbanda e na visão cristianizada de Exu com a simbologia infernal essa associação ganha contornos mais destacados. As velas carregam as cores de exu na umbanda: preto e vermelho. Vale dizer que existem velas com inúmeros formatos, convenientes ao tipo de trabalho que se está realizando. São muitas as velas específicas para os trabalhos de esquerda, com o formato de exus ou partes do corpo humano ou propriedades materiais, como casas e carros.

Foto de Leopoldo Tauffenbach.

2- Santo Antônio
Na umbanda, o orixá Exu é sincretizado com Santo Antônio. Aqui uma pequena imagem aparece sobre uma caixa de pó cruzado - pó especial para a realização de trabalhos mágicos - onde se lê "EXU". A imagem está no meio de outras duas caixas com os dizeres "ABRE CAMINHOS" e "DESPACHO".

Foto de Leopoldo Tauffenbach.

3- Guardiões
Nas palavras de Reginaldo Prandi, Exu "é também o guardião da porta da rua e o dono das encruzilhadas". Isso explica a presença de imagens de exus nas entradas dos terreiros e das lojas de artigos religiosos. As duas velas em forma de exus fazem referência a esta função atribuída à entidade.

sábado, 7 de setembro de 2013

Contra Exu

"Exu" - escultura de Tamba. Sem data.

Na Universal, vale quase tudo para "despertar a fé das pessoas", ou para convencê-las de que a igreja prega um Evangelho de poder, que, além de verdadeiro, "funciona" na prática. As "sessões espirituais de descarrego", criadas no limiar do novo milênio, constituem um de seus mais recentes e populares experimentos sincréticos. Como se pode perceber, não se trata propriamente de culto a Deus, mas de "sessão" dedicada à imprecação de encostos ou demônios que insistem em "encostar-se" nos adeptos e na clientela da Universal. [...]
Apesar de a imagem genérica em torno do sincretismo remeter-se comumente a uma suposta e tradicional tolerância religiosa dos brasileiros, a opção sincrética da Universal, cumpre frisar, não a levou a suprimir seus rompantes de intolerância nem sua notória hostilidade aos cultos afro-brasileiros. Daí uma das principais razões de seu envolvimento em diversos incidentes e conflitos religiosos ao longo dos anos.

Trecho do artigo Expansão pentecostal no Brasil: o caso da Igreja Universal, de Ricardo Mariano.  Estudos Avançados.  São Paulo,  v. 18, n. 52, 2004.


Os exus [...] são espíritos malignos sem corpo, ansiando por achar um meio para se expressarem neste mundo, não podendo fazê-lo antes de possuírem um corpo. Por isso, procuram o corpo humano, dada a perfeição de funcionamento dos seus sentidos. Existem casos em que por força das circunstâncias eles chegam a possuir animais para cumprir seus intentos perversos.

Trecho do livro Orixás, caboclos e guias: deuses ou demonios?, de Edir Macedo. Rio de Janeiro: Unipro, 2012.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Exu e a malandragem

"Exu" - obra de Kboco, circa 2002.
Para nossa cultura, a instauração da incerteza causa a insegurança que é associada à fragilidade. Na realidade, a ordem, a certeza, parece que nos trazem a segurança, a estabilidade. Sendo assim, quando nos deparamos com um símbolo como Exu, que carrega consigo a ambiguidade, a constante presença de ruídos, a desestabilidade e a presença de uma fraqueza da consciência, que o remete ao horizonte da loucura, percebemos o quanto ele desconcerta o pensamento que está relacionado à ordem e a uma verdade única.
[...]
Podemos então, em uma analogia, pensar que o compadre e as pombagiras também fazem parte do caráter do povo brasileiro. Detentores da ginga, do malemolejo ao falar, do jogo de cintura, essas entidades encantam os que as procuram por transitarem entre a ordem estabelecida e as condutas transgressivas.
E se a transgressão passou a ser um elemento constituinte da identidade de alguns grupos sociais no Brasil, quando os compadres e pombagiras despontam, há uma identificação de parte do povo com essa marginália sobrevivente e admirada por ser vitoriosa na luta pela vida.

Trechos retirados do artigo Quem não tem governo nem nunca terá: Exu e o jeitinho brasileiro, de Ivete Miranda Previtalli. Revista Verve, n.16. São Paulo: PUCSP, 2009.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Quadrinhos de Exu

Capa da história em quadrinhos "Zeladores", de Nathan Cornes e Anderson Almeida,
que traz o exu Zé Pilintra como personagem principal.

Zeladores é uma história em quadrinhos de ficção que propõe uma nova roupagem para as lendas e personalidades folclóricas brasileiras. Trazendo os mitos para o nosso tempo e os colocando no contexto urbano de São Paolo – cidade fictícia baseada na capital paulista – Zeladores brinca com o reconhecimento de lugares e eventos reais em meio a acontecimentos bombásticos. Não se trata de heróis uniformizados com roupas colantes e coloridas; no caso de Zeladores, o protagonista é um dos personagens mais carismáticos do folclore brasileiro: Zé Pilintra. Malandro, afrodescendente, habitante da noite e da boemia, é o mais humano dos seres do imaginário popular brasileiro. Acompanhado pelo melhor amigo – Opala 78, detetive paranormal – Zé Pilintra protege São Paolo de ameaças mágicas, agindo como um xerife do além. Neste número de Zeladores, ele enfrenta uma banda funk, reencontra o homem que o matou e visita a Caroxinha, o Barbarruiva e a Mulher de Branco, antes de ser invocado por uma bruxa e o Lobisomem verde dela. Isso tudo no primeiro terço da história.

Texto publicado no site HQ Maniacs em 15/09/2010. Disponível em: <http://hqmaniacs.uol.com.br/principal.asp?acao=noticias&cod_noticia=27240>.

A ideia de trabalhar com Pilintra nasceu quando eu estava trabalhando em uma empresa de produção cinematográfica. Meu trabalho era desenvolver conceitos para algumas séries de animação e, naquela época, estava procurando uma maneira de criar um grupo de super-heróis que tiveram uma forte base no folclore popular. Na fase de pesquisa desses personagens, eu e a equipe de desenvolvimento da produtora nos deparamos com um sem número de lendas e causos onde o sobrenatural atuava como um inimigo onipresente, impondo limites à curiosidade e ambição infinita do homem comum. Dada a natureza desses causos, de esmagadora maioria um tanto escuras e punitivas, alguns personagens se destacaram por seu contraste brutal. Pilintra era um desses. Eu tinha ido a alguns centros de Umbanda na vida, conhecia o Catimbó de vista, porque minha avó trouxe com ela o que aprendeu na juventude do nordeste, mas foi só quando estava engajado na pesquisa que pude conhecer um pouco mais do personagem e me apaixonei completamente pelas suas histórias, pelo seu universo. Do ponto de vista da criação de personagens, um verdadeiro achado. Era humano e, ao mesmo tempo, compartilhava algumas características divinas, transitando entre o mundo dos mortos e dos vivos, supostamente imortal e onipresente, capaz de ajudar quem precisasse em vários terreiros do país ou do planeta simultaneamente, bastando para isso riscar o seu ponto. Ele era um super-herói. Em 2009, a Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo abriu as inscrições para o PROAC HQ, que contemplava projetos de desenvolvimento de histórias em quadrinhos. Pensei que essa seria uma grande oportunidade para o projeto. Foi num papo com o Nathan, tentando explicar como estava difícil encontrar um caminho para a história que acabei pedindo sua ajuda e ele concordou em escrever o roteiro da HQ. Nathan Cornes é um dos maiores escritores que já tive o prazer de conhecer. Ele trabalhou com séries de animação, é muito rápido e o fato de termos trabalhado juntos em outros projetos e do cara ser um dos meus melhores amigos fez com que o trabalho começasse a decolar. Por decolar, diga-se um completo redesenho do projeto excluindo toda a parte religiosa e criando um universo contemporâneo, mais dinâmico e cartunesco para abrigar os personagens, todos releituras de lendas brasileiras. A partir desse momento, onde o Nathan escrevia como quem psicografa e eu desenhava como uma impressora a laser, posso dizer que dava pra sentir o Pilintra com a gente, entre uma chachaça e outra, sensação que se repetiu com cada vez mais frequência até a conclusão do projeto e seu lançamento, em 2010. A HQ ficou muito bacana e é um trabalho que me sinto horado de ter desenvolvido junto com o Nathan.


Depoimento de Anderson Almeida especialmente para o projeto Reconstruindo Exu.

Zeladores é um projeto de autoria de Nathan Cornes e Anderson Almeida. Abaixo estão algumas páginas da história, cuja versão completa pode ser lida no site oficial do projeto Zeladores: <http://www.zeladores.net/>.




Santinho de Zé Pilintra produzido por ocasião do lançamento da HQ "Zeladores".

sábado, 3 de agosto de 2013

Ogó de Exu


"Exu" - fotografia de Bauer Sá
Ogó é o nome dado ao instrumento de Exu, um bastão de formato fálico feito de madeira e cabaças que imitam a anatomia do pênis e guarda imensos poderes. O ogó simboliza o poder de criação capaz de perpetuar a vida. O trecho de texto abaixo foi retirado do blog Candomblé - o mundo dos orixás, e trata de um duelo entre Ossaim e Exu, que usa os poderes de seu ogó na peleja.

[...]
E então marcam um duelo.
Assim Osányìn foi consultar seus adivinhos temendo a morte. Os adivinhos dizem para Osányìn fazer ebo e não enfrentar Èsù, pois ele é um homem muito forte. Osányìn retruca dizendo:
- Imagine se por causa de Èsù, eu farei ebo, pois Èsù só possui sabedoria e não força! Eu sou poderoso, pois sou o grande mago e poderoso feiticeiro!
E lá se foi Osányìn ter o encontro com Èsù, na oritá (encruzilhada de três pontas). Chegando lá, Èsù diz:
- Você, Osányìn, não sabe que uma pessoa que tentaram matar na vida e não conseguiram, sou eu e somente eu mato e mando para o mundo dos mortos?
Dai então começaram a trocar provocações, cada um dizendo que era mais forte do que outro. Então Èsù diz:
- Se você Osányìn, realmente é forte, teste seu àse.
Mas foi Èsù quem primeiro testou seu àse, dizendo:
- Se eu empurrar essa árvore, ela cairá sobre você!
Èsù empurra a árvore, Osányìn consegue sair fora para não ser atingido. Èsù diz:
- Se eu encostar meu Ogó em você, você será queimado!
Èsù encostou e Osányìn não queimou, só saiu fumaça. Osányìn diz:
- Èsù, o que você viu são minhas proteções, razão pela qual você não consegue me fazer mal.
Èsù fica mais irritado e diz:
- Osányìn, com essa minha bengala (Ogó - bastão de Èsù), se eu bater no chão, vai brotar água e lhe cercar.
E assim Èsù fez e a água começou a cercar Osányìn. Mesmo vendo que a força de Èsú era maior que a sua Osányìn entra em luta corporal com Èsù. Depois de algum tempo, Osányìn percebe que não iria vencer Èsù e então implora a Èsù que pare a luta e que o desculpe. Èsù diz que não lhe desculpa, pois Osányìn havia lhe desrespeitado. Èsù então lança mão de seu Ogó e golpeia a perna de Osányìn, que fica quebrada. Então Èsù diz:
- Se eu lhe matar agora, você nunca saberá o valor de minha força, porém eu lhe castigarei.
Pega o Ogó novamente e golpeia a cabeça de Osányìn, o qual perde a fala depois da pancada. Osányìn se levanta, sai correndo e vai ter com seus adivinhos, para ver se encontrava alívio para o seu sofrimento. Ele queria ser curado. Eles lhe dizem:
- Você foi brigar com Èsù Òdàrà, que é mais forte do que você, você não sabia que ele é o líder dos òrìsà? Não há nenhuma divindade que desafie Èsù. Em razão desse desafio à Èsù, nada podemos fazer.
[...]

Texto completo disponível em: <http://ocandomble.wordpress.com/2013/05/27/o-poder-da-palavra/>.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Exu por Chico Tabibuia


O artista Chico Tabibuia ao lado de sua escultura "Exu".
<http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa21764/chico-tabibuia>


 Ora, ao retratar o sobrenatural Exu, sob as suas mais diversas formas, inclusive sob a dualidade masculino/feminino, Tabibuia estaria assumindo um papel de pessoa já externa à religião da umbanda. Com a possível contradição - tão comum na arte e na vida - de não ter abandonado em profundidade as crenças relativas a ela, já que atribui às esculturas um papel quase votivo e sem dúvida exorcizador dos dissabores causados por Exu, que ele agora identifica Lúcifer. Legitimado pela religião evangélica para a retratação do orixá, não mais transgressor porque livre da interdição do mistério, por outro lado Tabibuia declara que, ao representar os exus, faz com que fiquem aprisionados na escultura, "para não fazerem mais mal ao povo", ficando cada vez mais "fugidos das matas", onde poderiam atuar em liberdade.
Ficam patentes nessas suas palavras, e na sua obra realizada, as grandes energias que envolvem a um tempo concentração, prazer e sofrimento, mobilizadas pelo escultor em seu trabalho, ao transformar uma força natural em forma viva, porque criativa.



Trecho do prefácio de Lélia Coelho Frota para o livro A escultura mágico-erótica de Chico Tabibuia, de Paulo Pardal. 

"Exu" - 1980

"Exu hermafrodita" - 1996

"Família de Exus" - 1996
  
"Exu bissexual" - 2004
"Exu" - 2004

domingo, 21 de julho de 2013

Reconstruindo Exu na Casa das Caldeiras


Dos dias 14 a 23 de julho a exposição Tempo Forte, na Casa das Caldeiras, em São Paulo, apresentou os trabalhos dos artistas atualmente em residência. Nesta ocasião foi apresentada a instalação "Reconstruindo Exu", uma obra poética que sintetiza alguns dos resultados obtidos durante a pesquisa registrada neste blog.
Abaixo estão algumas fotos da instalação. Mais imagens podem ser vistas no álbum "Reconstruindo Exu", no Flickr: <http://www.flickr.com/photos/tauffenbach/sets/72157634745199568/>.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Exu e o sexo


"Exu Oba Wura". Escultura do artista Master Saint.
<http://mastersaint.com>
Exu por ser resultado da interação de um par, é o portador mítico do sêmen e do útero ancestral e como princípio de vida individualizada ele sintetiza os dois, É por isso que frequentemente, e, é representado pela forma de um par, uma figura masculina e uma feminina, unidos por fileiras de búzios. Exu está profundamente ligado à atividade sexual. Representados por um falo (pênis), ou suas representações simbólicas como: os penteados de forma fálica, sua arma, o ogó - bastão em forma de pênis -, sua lança; já as cabacinhas representam seus testículos.
Exu também está representado com objetos à sua boca; dedo, cachimbo e principalmente flauta, que vem representar a atividade sexual, como absorção e expulsão, ingestão e restituição, com a flauta Exú chama seus descendentes. Portanto símbolo por excelência da fecundidade. Exú jamais toma a forma de procriador. Exu é cultuado tanto como lésè-égún, como lésè-orixá, e apenas por seu intermédio é possível cultuar os orixás e as Iyá-mi (mãe ancestral). Não é apenas Òjisé-ebo, mas principalmente Òjisé, o mensageiro, fazendo a comunicação entre tudo que é oposto.

Trecho de texto retirado do blog Tanos. Disponível em: <http://tanos.blogspot.com.br/2004/07/orixas-histrias-e-dados.html>.

Exu e a infância

À esquerda, imagem de capa da revista de histórias em quadrinhos do personagem
Brasinha (Hot Stuff, no original em inglês), que carrega o mesmo nome de um
muito conhecido exu mirim. À direita, imagem de exu mirim. Disponível em
<http://evandrodeogum.blogspot.com.br/2012/10/exu-mirim-e-mojuba.html>.
Os [exus] mirins refletem a delinquência infanto-juvenil das crianças de rua, sem disfarces ou recondicionamentos. Propõem-se como antípodas da beleza, inocência e pureza infantil (típica das crianças da "direita"). Geralmente são descritos como muito feios. A feiúra metaforiza esteticamente o lado "errado" da vida pelo qual trafegam (ou trafegaram).
Segundo uma mãe de santo, "uma característica deles é perigo à vista, como as crianças de rua. Carentes, têm a sensibilidade deles, mas oferecem perigo. Eles estão com medo, mas fazem com que você tenha mais medo do que eles, para intimidar, exatamente como um moleque de rua".
A sua periculosidade é apresentada como talento (como de fato o é e assim a compreendem, espelhando os recursos que permitem às crianças de rua sobreviver). Fiel ao seu "ethos", a Umbanda vai elaborar estas crianças que se defendem assustando, intimidando, e podem de fato ferir, socializando as suas "defesas". Transformando a sua competência ofensiva em qualidade defensiva. Descobre virtudes nos seus defeitos, inclui-os, sem pré-condicionar que isso se faça ao preço da anulação do modo de ser que se lhes tornou constitutivo (o que seria mais uma forma de violência, típica de outros cenários do menu religioso brasileiro, determinados por vocações doutrinadoras ou conversoras, umas e outras tentativas de supressão do diferente e da especificidade).
Moleques em fase de auto-afirmação, são fortes e gostam de mostrar serviço. Geralmente exibidos e fanfarrões, são imprevisíveis, temerários, ágeis, mutantes e desafiadores da autoridade. Empenham-se ao máximo para provar que são capazes e obter aprovação, o que aumenta a sua presumida periculosidade.
Por serem crianças, supõem-se pouco acessíveis a argumentos racionais e, pequenos, capazes de entrar em brechas mínimas em que ninguém pode alcançá-los (frestas que, concomitantemente, se compreendem como lugares metafísicos e como mínimas rugosidades do caráter alheio e/ou feridas psíquicas mal cicatrizadas...).

Trecho do artigo Sublimidade do mal e sublimação da crueldade: criança, sagrado e rua, de José Francisco Miguel Henriques Bairrão. Disponível em
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-79722004000100009&lng=en&nrm=iso>.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Exu na Casa das Caldeiras

No próximo domingo, 14 de julho, o Ministério da Cultura e a Casa das Caldeiras apresentam a primeira exposição do Programa de Residência Artística "Obras em Construção", com obras resultantes desta primeira fase do processo de residência.

O projeto "A Reconstrução de Exu", de Alexandre Furtado e Leopoldo Tauffenbach irá apresentar uma instalação que sintetiza os resultados da investigação desenvolvida nestes primeiros meses.

Além da instalação do projeto, o público poderá conferir as obras e performances dos artistas Ricardo de Castro, Élcio Miazaki, Flávia Mielkin, Ivan Chiarelli, Bruno Gold, Coletivo Pi e Núcleo Aqui Mesmo.

A abertura acontece no domingo, dia 14, das 16h às 20h. A visitação acontece nos dias 15, 16, 21, 22 e 23. Durante a semana a Casa das Caldeiras está aberta das 9h às 17h. Dia 21h novamente das 16h às 20h.

Estão todos convidados. A entrada é franca e aberta.

A Casa das Caldeiras fica na Avenida Francisco Matarazzo, 2000, em frente ao Palmeiras e entre os shoppings Bourbon e West Plaza, próximo à estação Barra Funda.


quinta-feira, 4 de julho de 2013

Exu na Casa de Velas Santa Rita - parte 2

A iconografia brasileira dos exus não deixa dúvida sobre o que se pensa deles nas casas em que se observa o culto de quimbanda. Na verdade, não é preciso ir a um templo em que se realiza culto a essas entidades para ver as estátuas de gesso dos exus e pombagiras de quimbanda em tamanho natural, monumentos figurativos de gosto duvidoso, figuras masculina e feminina concebidas com as roupas, adereços e posturas que se imaginam próprias dos soberanos do inferno e dos humanos decaídos. Para apreciar a iconografia dos exus, basta andar pela rua e passar em frente a uma loja de artigos religiosos de umbanda e candomblé, que têm certa predileção de exibir essas estátuas à venda na entrada dos estabelecimentos, bem à vista. Há uma grande variedade dessas imagens, umas grandes, outras de tamanhos menores, um modelo para cada exu, um para cada pombagira, estas com freqüência idealizadas com roupas sumárias, se não escandalosas, lembrando mulheres de vida fácil no imaginário popular. Nos terreiros, elas se encontram no barracão ou mais preferencialmente nos quartos do culto reservado aos iniciados, os quartos-de-santo, ou, conforme a designação umbandista, na tronqueira, o quarto dos exus.

Trecho do artigo Exu, de mensageiro a diabo. Sincretismo católico e demonização do orixá Exu, de Reginaldo Prandi. Revista USP nº50. São Paulo: USP, 2001. Disponível em <http://www.revistas.usp.br/revusp/article/view/35275/37995>.

Imagem de Exu Zé Pelintra.
Imagem de Exu Rei.
Imagens de ferro de exus e pombagiras.
Detalhe de imagem de ferro de exu.
Cartolas de exus.
Imagem de Exu Cobra.
Ferramentas de ferro para o trabalho com exus e pombagiras.
Imagem de Exu Asa Negra.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Exu e os mercados - parte 2

Mercado Público de Porto Alegre:

O Mercado Público faz parte dos “caminhos invisíveis dos negros em Porto Alegre”, e sua importância deve-se a preservação e culto ao Orixá Bará Agelu Olodiá assentado no centro do prédio. O Bará é, dentro do panteão africano, a entidade que abre os bons caminhos, o guardião das casas e da cidade, e representa o trabalho e a fartura. Os religiosos de matriz africana e frequentadores acreditam na força do axé do orixá, que garantiu a sobrevivência e a prosperidade do mercado ao longo de seus 244 anos, dando fartura aos transeuntes que passam no local e fazem seus pedidos. Os africanistas e simpatizantes, ao fazerem seus pedidos de abertura dos caminhos na terra para a fartura de comida na mesa e de prosperidade na vida ao Bará, jogam sete moedas, como certos da sua proteção. 
Trecho do texto Bará do mercado, de Mãe Norinha de Oxalá. Disponível em:
<http://museudepercursodonegroemportoalegre.blogspot.com.br/p/textos.html>.


[...] documentário "A Tradição do Bará do Mercado - Os Caminhos Invisíveis do Negro em Porto Alegre", dirigido por Ana Luiza Carvalho da Rocha [...] traz relatos de babalorixás, ialorixás, tamboreiros e outros praticantes de religiões afro-brasileiras na Capital do Rio Grande do Sul. Buscando tornar mais conhecida uma antiga tradição, que se manifesta por meio de rituais e práticas realizadas pelos religiosos de matriz africana no interior e arredores do Mercado Público de Porto Alegre, o documentário permite ao espectador um passeio no tempo e pelas transformações de Porto Alegre sob o ponto de vista do negro. Conforme a tradição, no meio da encruzilhada que funda o Mercado está "sentado" o orixá Bará - entidade responsável pela abertura dos caminhos e pela fartura.
O vídeo integra projeto patrocinado pela Petrobrás, por meio da Lei Federal de Incentivo a Cultura. Tem produção de Anelise Gutterres, fotografia de Rafael Devos, captação sonora de Viviane Vedana e edição de Alfredo Barros. O projeto foi realizado pela Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre em parceria com a Congregação em Defesa das Religiões Afro do Estado do Rio Grande do Sul (Cedrab). 
Texto de Anahy Metz publicado no Portal do Estado do rio Grande do Sul. Disponível em: <http://www.rs.gov.br/master.php?capa=1&int=noticia&notid=105272&pag=218&editoria=&midia=&menu=orig=1>.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Exu e os mercados - parte 1

Os lugares preferidos de Exu são as encruzilhadas e os mercados – como a Feira de São Joaquim, em Salvador, ou o Mercado de Madureira, no Rio de Janeiro, que lembram em muitos aspectos os mercados nigerianos.

Trecho do livro Candomblé: a panela do segredo, de Pai Cido de Òsun Eyin. Editora Arx, 2008.

Conta a tradição oral que o mercado municipal de Porto Alegre também possui o seu Exú protetor e sustentáculo, assentado e enterrado no solo do local. Não se sabe ao certo a sua localização, mas conta-se que não pode ser desenterrado, pois isso faria ruir a edificação. A relação existente entre Exú e as feiras e mercados públicos é essencialmente comunicacional. “Mas quem o esquece, ou não lhe faz as devidas oferendas, incorre na sua ira e ele, por ser extremamente vingativo, provocará brigas e disputas – pois é o senhor de quem está na feira – ou, então, fará as intercomunicações cessarem” [...]. Sem Exú, sem comunicação, não há venda. Sob os auspícios de Exú, o mercado configura-se como locus da comunicabilidade, da troca entre os comuns, da partilha de sensibilidades.

Trecho do artigo Consumindo o candomblé: estudo sobre a comunicação dos objetos dessacralizados e trocas sígnicas na pós-modernidade, de Cristiano Henrique Ribeiro dos Santos. Disponível em <http://www.compos.org.br/seer/index.php/e-compos/article/viewFile/87/87>.

Mercadão de Madureira:

Selmy Yassuda
<http://vejario.abril.com.br/especial/achados-dicas-melhores-lojas-mercadao-de-madureira-744230.shtml>
<http://cronicasdumasviagens.wordpress.com/2010/05/12/mercadao-de-madureira-como-ponto-turistico/>
<http://www.flickr.com/photos/denilsoncosta/sets/72157624085146157/>

Feira de São Joaquim, por Luciana Zacarias:

<http://www.flickr.com/photos/lucianazaca/sets/72157602201039008/detail/>
<http://www.flickr.com/photos/lucianazaca/sets/72157602201039008/detail/>
<http://www.flickr.com/photos/lucianazaca/sets/72157602201039008/detail/>
<http://www.flickr.com/photos/lucianazaca/sets/72157602201039008/detail/>